Universo Criativo

A efervescência de Fortaleza, no Ceará, influenciou muito o trabalho da dupla Marco D. Julio e Marcelo Fialho, do O Tropicalista. Antes de descer o mapa e estabelecer novo lar em Florianópolis, eles viveram por lá a potência da produção autoral nas áreas da moda e do design, inspirados na rica tipologia que os cercavam, independentes na possibilidade de conduzir um processo mais livre que combinava o artesanal com o tecnológico. Trouxeram para cá toda essa autonomia criando uma plataforma que articula pesquisa e desenvolvimento de projetos e práticas artísticas em diferentes linguagens que transitam pela arte, artesanato e design. Na entrevista eles contam a história, o percurso e os desdobramentos até aqui.

Como tudo começou? Como foi o início da dupla?

O Tropicalista – Nos conhecemos no início dos anos 2000, em Fortaleza (CE).  Provenientes de campos de formação diversos, nos aproximamos pelo interesse comum pela arte. Nosso primeiro trabalho juntos, no entanto, foi na área de design. Mais especificamente na moda, quando idealizamos e desenvolvemos uma marca chamada Irerê. Na época o Ceará experimentava uma efervescência na produção autoral de roupas e fizemos parte daquele momento tão rico. Entendíamos como um tensionamento com a lógica do fast fashion e sua indução de processos de criação, produção, comercialização – e descarte – massificados que vinham se apresentando. É importante assinalar, ainda, que vivíamos em um Estado em que a produção artesanal além de rica, acolhendo as mais diferentes tipologias, é reconhecidamente farta e de alta qualidade. A irerê incorporava em sua linha de produtos desde roupas, acessórios e objetos para a casa resultado da articulação entre as novas tecnologias e os fazeres artesanais. Um exemplo significativo dessa “revolução” tecnológica foi a democratização dos processos de impressão digital sobre têxteis e outras superfícies.  No final daquela década, havíamos nos especializado na criação de soluções de estamparia para um nicho do mercado da moda e da decoração interessada na personalização de seus produtos.

E o surgimento do O Tropicalista?

O Tropicalista – A vinda para Florianópolis, em 2011, trouxe uma resposta aos anseios pessoais do que profissionais. Aqui passamos a absorver uma série de antigos interesses de pesquisa a novas metodologias de trabalho, num tensionamento mais intenso em direção ao campo da arte. Foi quando criamos O Tropicalista que, para nós, consiste em uma plataforma que articula nossas pesquisas, a criação e o desenvolvimento – assim como a divulgação – de projetos e práticas artísticas em diferentes linguagens. Nossa percepção é de que que essa amplitude de interesses é necessária para uma produção que se insurge contra as classificações tradicionais e que provoca fricção entre as noções de arte, artesanato e design mais veiculadas por aí.

Em uma perspectiva mais comercial oferecemos uma variedade de produtos que vai de roupas e acessórios a móveis e objetos, em escala restrita. Viabilizamos, também, projetos de estamparia para as mais diferentes superfícies – tecidos, porcelanas, azulejos, papeis de parede – de forma personalizada.

Como vocês definem a linguagem do trabalho?

O Tropicalista – Compreendemos que o processo criativo é o mesmo, independente do campo de conhecimento em questão. Nesse sentido, nos interessam os trabalhos que capturem e articulem conhecimentos e práticas diversas. No momento, por exemplo, estamos interessados em processos que discutam ambiência e saúde, arte e ciência, natureza e artificialidade.

Esse é o lambe Jungle, arquivo aberto que está disponível para download no site do estúdio.

Quais os produtos lançados pelo o estúdio O Tropicalista no mercado?

O Tropicalista – Atualmente estamos com uma linha de lenços e echarpes em tecidos naturais, como seda, algodão e linho. São peças versáteis, com toque confortável e estampas originais. Também temos porcelanas da série entomofagia, em que o resultado é fruto de um longo processo que inclui a ilustração manual, a digitalização e manipulação da imagem, a impressão em papel espacial, o recorte e a aplicação sobre a porcelana e, finalmente, a queima em alta temperatura que proporciona a fixação definitiva das imagens na peça. Esse é um exemplo dessa articulação que exploramos entre aparatos tecnológicos e processos manuais.

Oferecemos, ainda, um painel de lambes premiado no 4º Salão Internacional de Design de Superfície de Santa Maria, em 2014. Disponibilizamos o arquivo aberto do projeto, em copyleft, de forma que o interessado pode até mesmo alterar as cores ou as dimensões da obra. É só nos mandar um email (otropicalista@otropicalista.com.br), que a gente encaminha o arquivo. Entendemos que era uma forma de compartilhar nosso trabalho com nossos clientes e com o público em geral. E se depois puder nos mandar uma foto do resultado, ficamos bem contentes!

Vocês transitam por várias áreas e recentemente foram convidados pelo curador do MASC, Josué Mattos, para participar da exposição Desterro Desaterro em celebração aos 70 anos da instituição. Qual a proposta levada para o museu?

O Tropicalista – O convite foi realmente muito especial. Tanto pela relevância de estarmos incluídos nas comemorações dessa importante e reconhecida instituição catarinense e nacional das artes, quanto pelo grau de liberdade oferecido pelo curador. Nossa proposta foi apresentar uma instalação, chamada “Floresta Inventada”, que ocupou a antessala do museu com o interesse de provocar uma experiência imersiva no público. Utilizamos lambes, adesivos, recortes de papel de parede, móveis, objetos, esculturas e plantas, muitas plantas. Um dos objetivos era transformar um espaço somente de passagem em um lugar de encontro e permanência. Achamos que está funcionando, mas somos suspeitos para falar, o melhor é ir lá e conferir. E aproveitar para ver a exposição como um todo.

 

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