Catarinense notável

Arquiteto natural de Blumenau, Dietmar Starke, fala sobre como levou suas obras para o mundo e conquistou prêmios internacionais.

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O arquiteto natural de Blumenau (SC), Dietmar Starke retornou ao estado para debater o mercado atual durante o evento Container Rizoma, promovido pelo escritório RKA Container de Itajaí e o Núcleo Catarinense de Decoração – NCD. Por ser pouco convencional, Starke – que as vezes é chamado de “maluco” – tem uma carreira de sucesso como inovador na criação de cidades inteligentes e levou suas obras para o mundo.

Na década de 1980, quando morou na Alemanha, criou o plano para a integração daquele País – quando o Muro que dividia o país veio abaixo – e projetou o Centro de Mulheres do Mundo Islâmico no Egito. Seu trabalho mais recente são as Naves do Conhecimento, no Rio de Janeiro (RJ). As Naves funcionam com o conceito de uma praça digital, onde a população pode ter livre acesso à internet. Nos espaços, são oferecidos cursos, oficinas de capacitação digital e atividades interativas.

Esse trabalho lhe rendeu um dos prêmios mais importantes do mundo “Architizer A+ Awards”, na categoria edifícios públicos, o que é motivo de orgulho para o catarinense e é considerado um novo modelo de políticas públicas no País. “As naves do conhecimento é um projeto de políticas públicas que busca fugir do modelo assistencialista para um modelo de que o conhecimento deve ser algo acessível a todos”, considera.

REVISTA DESTAQUE – O senhor é catarinense, viveu 13 anos na Alemanha, e sua carreira é repleta de feitos notáveis. Como define sua trajetória?

DIETMAR STARKE – Sim eu sou catarinense. Mas vivi como migrante em diferentes cidades e Estados do Brasil e em diferentes países. Minha postura sempre foi ao mesmo tempo de estranhamento porém multicultural. O estranhamento é imprescindível, pois nos viabiliza um olhar mais criterioso frente aos espaços existenciais. Sempre com olhar do diferente e do igual. Um olhar de respeito aqueles espaços, mas também de questionamentos. Havia sempre um tensionamento. De participar e questionar ao mesmo tempo. Isso definiu meu modo de ser e estar no mundo e, portanto, minha carreira. Eu vejo a arquitetura e a urbanização como a materialização da minha visão de homem e mundo. De somar. De agregar. De negar a interdição e a exclusão social.

Como deve ser a arquitetura contemporânea?

Eu penso que não há apenas uma única possibilidade. Ela deveria ser criativa, inovadora e deveria retratar a espacialidade e a territorialidade daquela comunidade ou sociedade. Mas primordialmente inclusiva. Gosto muito do conceito de ecosofia de Guattari, pois a partir dele a arquitetura significaria um conjunto de rupturas e continuidades. Manter a história local através da preservação do patrimônio, mas romper com a prática de servir apenas ao sistema capitalista. Acho que ela deveria ser a priori uma práxis que pudesse dar visibilidade a uma mudança paradigmática da relação do homem com a economia, do homem com o meio ambiente e do homem com os outros homens.

Qual a sua contribuição para a modernização das cidades no Brasil?

Acho que o conceito de modernização precisa ser contextualizado, pois ele vem associado a uma positivação que eu questiono, já que é uma farsa. Não sei, pois não há consenso nas diferentes áreas do conhecimento, sobre se vivemos em uma sociedade pós-moderna. Se modernização está aqui associado ao conceito de modernidade, acho que minha contribuição é grande, já que o que se denominou de modernidade tinha como principal objetivo a associação da ciência a técnica, que faz surgir a tecnologia que deveria estar a serviço do homem. Mas este projeto fracassou. Como exemplo cito mil novas tecnologias na produção de alimentos, na área da saúde, de materiais, equipamento, na área da informática, o que não impede que sejamos um país que exporta alimentos quando muitos ainda passam fome, morrem de doenças simples, e vivem uma exclusão por serem analfabetos funcionais. Meus projetos retratam sempre meu sonho existencial de um mundo mais justo e igualitário, por isso busco criar espaços de empoderamento dos menos privilegiados sócio econômico e cultural.

As Naves do Conhecimento lhe rendeu um dos prêmios mais importantes do mundo “Architizer A+ Awards”. Esse projeto pode ser considerado um novo modelo de políticas públicas no País?

Sem sombra de dúvida as Naves do conhecimento são, sem nenhuma pretensão, um modelo de Políticas Públicas que foi reconhecido mundialmente e fez que eu ganhasse “um dos prêmios mais importantes do mundo”. Um projeto que vai além da inovação na arquitetura, mas primordialmente um projeto que em sua totalidade está além da inclusão. Eu penso que se concretizado em sua integralidade é um modelo de superação de um paradigma que pode superar a dicotomia entre cidade e favela.

O equipamento distingue-se das praças convencionais por quais aspectos?

Eu não lembro de ter visto no Brasil praças convencionais com educação, qualificação, profissionalização, arte, cultura, diferentes mídias da qualidade que estes espaços têm. Ainda mais se tratando de que eles estão posicionados em territórios existenciais onde uma grande parcela é menos favorecida. Onde as pessoas são tratadas com dignidade. Tem acesso a uma educação, a materiais e equipamentos que não deixa a desejar a nenhum espaço dos ricos. É este conjunto do projeto que viabiliza um empoderamento em pessoas que normalmente são tratadas como se fossem de segunda categoria e naquele espaço elas não o são. Isso permite uma possibilidade a elas para aprimorar suas escolhas, permitindo construir sua própria história.

A tecnologia do local surgiu dos entulhos. O senhor é o cientista por trás do projeto?

Eu me considero um arquiteto e urbanista e primordialmente um sonhador. Gosto de dizer que sou um artista que sonha. Sonho com um mundo diferente e melhor. Se sou cientista a história irá dizer. Se a ciência deve estar a serviço do mundo para transformá-lo em um lugar melhor, talvez eu me encaixe nesta definição. Mas a inspiração vem de minha concepção de caos e da possibilidade que ele cria associado sempre a minha crença de que as pessoas são serem desejantes.

Quais são as principais inovações das Naves em termos de projeto e de materiais?

O projeto reflete o pensamento filosófico contemporâneo, onde a arquitetura e tecnologia estão a serviço do homem, elevando-o à dimensão da criatividade e liberdade de expressão. O design é a nova visão de um futuro que queremos viver, saindo dos rótulos e modelos tradicionais. A Nave possui uma sinergia única com os visitantes, ela os projeta para uma saída, uma nova perspectiva de vida, pois o espaço inconvencional, criado com conceitos climáticos e de sustentabilidade, são altamente inspiradores para estimular processos criativos dos usuários. A tecnologia toda em aço pré-moldado e com vidros apropriados para serem utilizados como telas midiáticas, proporcionam uma atmosfera mágica, onde a arquitetura e mídias se complementam e um corpo único.

Em que as cidades de Santa Catarina podem se espelhar para fazer do urbanismo e da arquitetura uma ferramenta de transformação?

Criando em suas cidades espaços de igualdade social. Acho que em Santa Catarina há uma especificidade que foi a sua colonização. Temos uma mistura de culturas que deveriam ser a riqueza e maior patrimônio do Estado. Mas não é. Esta colonização criou castas étnicas e produziu discursos e subjetividades excludentes. A configuração de muitas cidades, diferentes de outros Estados fez com que os conceitos de centro e periferia ficassem mais estratificados e evidentes. Desta maneira o papel do arquiteto e do urbanista é muito importante para pensar e projetar espaços que ultrapassem esta cultura da exclusão, de padronização que busca enquadrar tudo em formas. Espaços que possibilitem modificações nas produções de subjetividades, nas visões de homem e mundo.

O senhor já realizou muitos feitos, até fora do Brasil. Há mais a ser feito?

Com certeza há muito a ser feito. Como bem provou a maioria dos profissionais de ciências humanas o ser humano é um ser do desejo. É o que nos move. E pretendo com certeza ainda poder contribuir como professor na formação de uma nova geração com sonhos que levem a uma sociedade justa e igualitária e como arquiteto e urbanista criar espaços onde as pessoas não apenas se reconheçam como seres de desejos, mas que possam se perceber não apenas como consumidoras ou produtos do meio social, mas que sejam capazes de fugir desta padronização da sociedade de modelos de seres humanos.

Como o senhor visualiza a arquitetura no Brasil a médio e curto prazo?

Em alguns aspectos ela conseguiu fazer uma ruptura paradigmática, com obras muito interessantes. Com uma preocupação com a atuação e formação de novos profissionais na área. Com a compreensão e responsabilidade do seu papel como uma área de transformação social. Mas em outros ela mantem uma continuidade de se submeter a modelos e práticas padrões conservadoras do sistema econômico e político vigente.

Olho: Meus projetos retratam sempre meu sonho existencial de um mundo mais justo e igualitário.

Olho: Eu me considero um arquiteto e urbanista e primordialmente um sonhador.

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