Coluna Rio

…a pergunta na minha cabeça era: qual assunto vou abordar na primeira matéria de 2018? E foi com as viagens que quase sempre acontecem nas férias que veio a resposta. É mais prazeroso e saudável falar de coisas belas e positivas, afinal esse é o foco da nossa revista. Mas não tem como ficar alienado e se abstrair totalmente ao que acontece ao nosso redor. Vejo a tristeza dos refugiados obrigados a fugir de suas cidades, de seus lares para salvarem suas vidas, famílias destruídas pelos bombardeios sem fim na Síria, e pessoas se tornando reféns dentro de seus próprios lares pela violência urbana no Brasil.  

Isso entristece a todos. Como arquiteta e urbanista, acho chocante caminhar por muitas cidades e observar o abandono, a falta de zelo e o desleixo pelas ruas. Lugares agradáveis para o convívio social são cada vez mais raros, tornando mais difícil viver bem nas cidades já tomadas em muito, pela frieza do concreto, em especial as grandes metrópoles.

É neste contexto, que se encaixa uma forma das formas da Street Art, ou Arte Urbana, que vem trazendo cada vez mais, cor, alegria e beleza para grandes centros por todo o mundo através dos painéis e murais em escala gigantesca. Os grafismos e o muralismo são a manifestação mais conhecida – e mais antiga – da Street Art. A técnica pode ser feita através de graffiti, ou estêncil, colagem de cartazes e sticker art. São muito detalhadas, cuidadosamente planejadas e executadas, realçando não só a beleza da arte em si, mas também do lugar onde ela está inserida. Surgiu nos Estados Unidos, na década de 70, e ainda mantém seu caráter dinâmico e efêmero.

Nos mesmos anos 70, movimento street art, teve seu início em Londres com os pichadores do sistema de metrô, conhecidos pelo seu desprezo pelo governo, que acabaram tornando o graffiti como rótulo de vandalismo. Mas a street arte está longe de ser uma atitude de vandalismo que depreda monumentos públicos e históricos, desvalorizando não só a obra, mas também a arte. É uma forma livre e democrática de expressão artística.

Dentre os grandes representantes podemos citar Banksy, de Bristol (Inglaterra).  Filho de um técnico de fotocopiadora, começou como açougueiro mas se envolveu com graffiti durante o grande boom de aerossol no fim da década de 1980 e não parou mais.

Se a proposta da arte urbana é justamente sair dos lugares ditos “consagrados”, destinados à exposição e apresentações artísticas como o teatro, os cinemas, bibliotecas e museus, para dar visibilidade da arte a todos, tem conseguido seu objetivo.

A polonesa Natalia Rak, outra bela representante do muralismo, também vem embelezando cidades pelo mundo. Apaixonada por pintura desde os 10 anos de idade, ela tem suas pinturas gigantes e com cores vibrantes espalhadas em paredes de diversos prédios da Polônia, Alemanha, França, Áustria e EUA. O ar infantil e ingênuo na maioria dos seus trabalhos traz a esperança inserida no seus desnhos. Um de seus últimos trabalhos, uma menina vestindo roupas tradicionais polonesas e  regando uma árvore existente no lugar, levou dias para ser feita e faz parte do Folk on the Street, festival de arte em Bialystok, Polônia.

No Brasil, essa influência positiva tornou o caminhar pelas ruas da capital paulista muito mais prazeroso, com os murais do artista brasileiro, Eduardo Kobra, um dos melhores muralistas do mundo. Seus murais monumentais são encantadores, homenageando pessoas, culturas e muitas vezes resgatando memórias da própria cidade.  Com obras espalhadas pelo mundo todo, a criatividade do artista não para e não se restringe a materiais, ele se adapta dependendo da superfície onde sua obra será aplicada. Como ele mesmo diz, “o colorido dos meus desenhos é feito com spray, mas não fico restrito a um material só. O muralismo e o grafite são livres.”

Quem visita hoje a zona portuária do Rio, hora revitalizada, se surpreende com o imenso mural do artista, Todos Somos Um, que veste um muro com mais de 3mil metros quadrados, exibindo uma profusão de cores incrível.

Rio de Janeiro, São Paulo, Lisboa, Barcelona, Stavanger, Milão, Nova York, Bialystok, Londres, Moscou e outras dezenas de cidades pelo mundo, têm mais vida nos seus espaços urbanos, têm seu skyline modificado e enriquecido pela street art. A Street Art não é só uma manifestação rica da cultura atual e do passado, mas é uma arte sem fronteiras, democraticamente acessível a todos. E onde ainda há fronteiras nesse mundo, essas fronteiras se desfazem com essa arte!

Por Arq. Débora M. S. de Carvalho

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