O design funcional, sofisticado e sensível de Ále Alvarenga

Com imenso conhecimento industrial, o design Ále Alvarenga une seu pensamento criativo e cheio de emoções para criar peças que vão desde a mais sofisticada, até móveis simples e funcionais, sem deixar de serem únicas. O segredo deste profissional não é algo tão secreto assim e tampouco mirabolante. A mistura de estudos, inspirações e pesquisas fazem dos projetos assinados por Alé Alvarenga objetos que carregam histórias de vida e que despertam desejos.

O olhar atento ao mercado e ao comportamento humano tornam o profissional referência em design. Com a carreira consolidada como desenhista industrial, atuou também na indústria de joias, moda, brinquedos, metais e no setor de mobiliário. Em 2017, lançou sua primeira linha de design autoral.

Nesta entrevista, conheça mais sobre a história profissional e pessoal de Ále Alvarenga, que não se considera “gênio” do design, mas detém a medida exata para conquistar as pessoas por meio de seu talento e empatia.

Quando o design entrou em sua vida?

Ao contrário da maioria dos designers brasileiros que, na verdade são arquitetos (risos), eu sou designer industrial formado na UEMG (Universidade Estadual de Minas Gerais) desde 2001. Mas comecei lá atrás, quando passei no vestibular de Arquitetura e Urbanismos pela UFMG, e no intervalo até meu ingresso no primeiro semestre (na época os vestibulares dividiam as turmas em duas por ano) dei um tempo e estudei modelagem de roupas e tecnologia têxtil num curso Part Time na Parsons School de Nova York. Quando retornei, percebi que queria desenhar cadeiras com a formação de arquiteto, porém seria melhor me graduar em design industrial. O mobiliário veio como paixão mesmo, fiz todos os estágios disponíveis na área e mesmo antes de me graduar, já possuía móveis sendo produzidos e comercializados com grande sucesso.

Desde criança nutri grande curiosidade sobre como as coisas eram feitas; desmontava o telefone de casa (aqueles modelos de disco), ficava horas numa marcenaria próxima da minha casa vendo como eles faziam as coisas e pensava que eu poderia fabricar um Pinóquio; acrescentava peças e repintava meus robôs de brinquedo, construía carrinhos, entre outras coisas. Fui uma criança que lia tudo que passava pela mão e sei de cor todas as obras de Monteiro Lobato e Cecília Meireles.

O que te inspira desenhar um projeto e iniciar uma nova peça?

Sempre tive o ímpeto de entender como as pessoas interagem com seu meio, tanto social como psicológico, portanto, pensar nas pessoas que irão se identificar com aquele objeto que desenho, revelar sentimentos e memórias são meu principal foco.

Quando inicio qualquer projeto busco uma explicação filosófica, psicológica ou até mesmo antropológica de como o usuário interpreta seu momento na história. Particularmente, não faz sentido desenhar algo que fique congelado no tempo, seja pela estética ou pelo uso, afinal, aquilo pode atravessar gerações e se tornar parte da história de uma família ou no mais superficial dessas esferas, conectar esse ser humano às lembranças mais ternas da sua vida. A casa e os objetos dentro dela devem ser valorizados, pois se tornam âncoras nesse mundo de nomadismo. Como num dos meus filmes favoritos “O Mágico de Oz”, Dorothy descobre que, apesar de viver aventuras num mundo desconhecido, não existia lugar melhor que o seu lar. O lar é onde o nosso coração reside.

Como você descreveria seu trabalho? E qual é o principal diferencial das suas peças?

Meu trabalho é uma mistura. Quando racional, busco a medida exata entre conforto, uso, ergonomia e produção (nunca dissocio a estética e a forma como aquele objeto será fabricado, pois existem questões pragmáticas a serem atendidas, uso dos materiais e como serão manipulados no decorrer de uma linha de produção).

Neste momento, a estética esbarra na linguagem pela qual o projeto se envereda. Nunca colocarei elementos meramente decorativos nos meus projetos, que estão longe de ser minimalistas, entretanto, me direciono para algo simples e de fácil entendimento, sem deixar de ser refinado. Costumo dizer que os designers de hoje precisam acessar o nível simbólico das coisas: uma cadeira precisa atender a requisitos de durabilidade, conforto e produtividade, mas também são chaves para acesso aos sentimentos, lembranças e desejos; afinal quem não se lembra com carinho daquele almoço de domingo na casa da vovó, quando todos ficavam ao redor de uma mesa? Não lembraremos exatamente de como eram os móveis, mas certamente a lembrança será despertada ao vermos algo que nos emocione ao nível de sentir o cheiro do bolo que a vovó fazia.

O que não pode faltar em um produto seu?

Não pode faltar o elemento humano. Muito mais que ser um objeto bonito ou prático, quem usa aquilo é muito mais importante. Pensar nas características de como uma pessoa irá usar aquela criação e como ela irá envelhecer. Participar de várias etapas da história dessa pessoa que o escolheu é meu principal objetivo.

Como fazer para oferecer diferencial neste mercado que cresce cada vez mais no Brasil?

As pessoas estão demonstrando um rápido cansaço das redes sociais. Parece uma resposta pouco tangencial à pergunta, mas que se faz central num sentido mais amplo. Acho que o grande diferencial vai muito além do preço, se aquilo está na moda ou o designer é uma celebridade. Por isso penso que a diferença é quando o mercado percebe o designer como um ser humano com toda uma gama de coisas interessantes a oferecer. Acredito que o que vai determinar se alguém é diferente de uma foto publicitária será a maneira como ele se apresentará como alguém que acolhe a humanidade do outro. Empatia e amor serão os verdadeiros diferenciais.

Para você existe o produto ideal (perfeito)? O que ele deve conter?

O ideal é o desejo pela perfeição, que é elaborado na mente, mas encontra limites na vida real. Por isso, muitas pessoas se sentem frustradas quando algo sai errado; seja na festa de casamento dos sonhos ou num jantar entre amigos quando algo fica mais salgado do que deveria. Um produto nunca será ideal ou perfeito, porém, ele precisa abarcar o máximo de características para que se aproxime daquele ideal desejado, seja em qualidade, em estética e conforto. Acredito que, para essa fórmula mágica de tornar algo em perfeito está longe de existir. Sempre existirá algum parafuso em algum lugar que alguém odiaria saber que existe.

E quanto às tendências, você as segue ou parte para um caminho contrário?

Nunca acreditei em tendências. Minha opinião pessoal é que elas criam um balizador de mercado onde o objetivo é apenas o consumo sem reflexão. Pensar dói e custa caro. Pensar exige mergulhar profundamente na sua vida e nos seus verdadeiros valores. Por isso seguir tendências poderia ser uma maneira simples de entregar ao outro a direção da sua vida. Claro que essas tendências trazem elementos de uma determinada época, esse Zeitgeist (espírito do tempo) que pode explicar razoavelmente algumas preferências, mas entendo que tendências não explicam tudo e não podem ser seguidas cegamente. As pessoas permanecem na história (às vezes como uma pessoa conduz sua vida influencia diversas gerações), então o elemento humano e seus gostos particulares, além da sua história, são determinantes ao se criar algo e isso pode se tornar tendência.

Das suas criações, existe uma que seja a preferida? Por quê?

Foi meu primeiro produto na época que ainda era estudante. Eu era estagiário numa empresa de Belo Horizonte e o proprietário me deu a chance de desenhar um banco, que foi uma homenagem ao casal Eames. Me lembrei que moldar o compensado era inovador na década de 40 ou 50 e quis resgatar essa técnica. Na época que criei essa peça o compensado moldado era visto como uma coisa do passado, usado apenas em produtos de escritório ou escolares. Foi no ano 2000 quando o banco Ray nasceu e se tornou um sucesso de comercialização no mercado local. Infelizmente só tenho duas fotos (muito bonitas por sinal, feitas por Jomar Bragança) mostrando detalhes da peça. Acredito que ela será reeditada em breve.

Qual matéria-prima mais desafiadora com a qual já trabalhou?

Minha atuação é muito diversa. Desenhei de moda a joias; já desenhei equipamentos cirúrgicos e brinquedos; cada vertente dessas é desafiadora, pois criar algo a partir de uma matéria-prima usual continua sendo um desafio. Posso elencar que a coisa mais complicada que tive que lidar foi com os nano-plásticos para um projeto de prótese ocular que ajudei a desenvolver. Esse produto não aceitava certas usinagens, então tivemos que projetar de acordo com o “desejo” do material.

Até o momento qual o maior aprendizado que teve com sua profissão?

Ser humano e acolher isso. Antes de desejar ser uma celebridade, mesmo porque não sou, me vejo como um operário do design. Um profissional como um médico, um dentista, um marceneiro ou serralheiro, todos executam seus papéis com o objetivo de atender a uma necessidade real de pessoas que os buscam com problemas a serem resolvidos. A forma como escolhi ser útil foi o design e isso é algo que vai além de apenas “pertencer” ao rol dos gênios (poucos são gênios). Aprendi que acolher meu cliente, meu consumidor e entregar algo que seja bom, útil e belo é mais importante que apenas estar numa atmosfera distante dos seres humanos pros quais trabalho.

 

Share this Post

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*
*