Quando a inspiração vem do mar

Elias Lanzarini e a arte de trabalhar a madeira de descarte, dando a elas um novo significado por meio de peças singulares e repletas de história.

Com uma trajetória recente no mercado mobiliário e um trabalho que lembra a produção de uma boutique com produtos singulares, Elias Lanzarini mostra a que veio. Com o seu projeto Elaya Design, suas peças todas produzidas com matérias-primas de descarte, principalmente, de embarcações avariadas ou antigas, aos poucos estão ganhando a atenção da mídia e de grandes lojistas do Brasil, além de já marcarem presença em eventos de destaque, como a feira Rosenbaum ou em exposições fora do país. Uma história que começou quase que pelo acaso, se entrelaçando com sua paixão pelo mar e pela navegação e que hoje se firma com a perspectiva de um futuro para lá de promissor. Indo na contramão da busca pela madeira perfeita, aquelas compradas prontas para produzir, Elias procura encontrar na história de cada peça de descarte, com seus defeitos e formas que se criaram ao longo do tempo, o projeto ideal juntamente com um novo significado. Com isso, sua chegada ao mercado vem para ressaltar que o Brasil é, sim, celeiro de grandes talentos criativos.

E para conhecer um pouco mais de perto sobre sua vida profissional, fomos à casa/oficina de Lanzarini que nos recebeu para um ótimo bate-papo e que você confere aqui, com exclusividade.

Foto João Pedro

Em que momento a marcenaria passou a fazer parte da sua vida?

Tudo começou em 2014. Depois de 10 anos trabalhando com meus pais numa empresa que tínhamos de coleta de resíduos de construção, em balneário Camboriú, quando eles resolveram que era o momento de se aposentar. Como eu não quis dar continuidade aos negócios, a empresa foi vendida. Despois da venda parei para pensar o que faria dali para frente. Neste período, apesar de já ter contato com o descarte, eu ainda não tinha este olhar para a questão da marcenaria. E como gosto muito do mar e sempre quis ter uma embarcação, acreditei que esse poderia ser o caminho e fui em busca de uma para mim. Então comprei uma canoa de Guarapovú, que não era nova e precisava de muitos reparos. A levei até um construtor de barcos, o sr. Piu, um grande amigo meu. Passado alguns meses, um dia quando chego lá, ele me dá a notícia que não iria mais arrumar o meu barco, pois estava encerrando as atividades depois de 40 anos de atuação no mercado, e que venderia todo o seu maquinário. Neste momento me deu um insight e então comprei dele as minhas três primeiras ferramentas: a serra fita, furadeira de bancada e o torno. Trouxe para casa e aqui mesmo resolvi montar minha oficina. E ali começaram a surgir os primeiros projetos, a partir deste acaso com este meu amigo construtor de barcos. Fiz a minha primeira peça, uma mesa de centro. Olhei, gostei e então comecei a buscar conhecimento na marcenaria, porque até então eu fazia um trabalho manual ou outro, mas nada muito profissional.

Foto Genevievi

Onde foi buscar aprimoramento?

Fui para São Paulo em busca de cursos na área e durante um evento conheci o designer Paulo Alves, hoje um amigo que desde então foi sempre muito prestativo e solidário com essa minha busca por conhecimento. E ele indicou um curso. Fui lá e fiz, o primeiro. Eram 10 dias seguidos, um intensivo criando a peça, trabalhando planilhas de corte, compras de material e produção. Deste curso produzi uma escrivaninha, que acabei dando de presente para um amigo que me hospedou em São Paulo. Nestes dias em que estive por lá comprei um livro em inglês falando sobre trabalhos em marcenaria e, aos poucos, fui percebendo que o Brasil ainda está atrasado no assunto. Voltei para casa com a cabeça fervendo de ideias. Vi que o livro foi editado nos Estados Unidos, e então resolvi que teria que ir para lá para buscar mais informações.

Nos conte como foi esta experiência.

Para conseguir fazer o aprimoramento fora do país, eu precisava de dinheiro. Em abril de 2015, surgiu um trabalho para ser local helper da equipe Abu Dhabi, durante a Volvo Ocean Race. Guardei o dinheiro e então embarquei para os Estados Unidos, mais especificamente, para São Francisco, na Califórnia. Meu foco estava voltado somente para o assunto da marcenaria. Consegui um trabalho na área, ganhei mais experiência e neste meio tempo ouvi falar de um projeto não governamental que me chamou a atenção chamado Educational Tall Ship. Eles estavam reconstruindo um navio que servirá para passeios educacionais de crianças e adolescentes, na Baía de São Francisco. E um certo dia quando estou indo para o curso de produção de Canoas Canadense, resolvi parar em um ponto antes do meu destino e ir caminhando. E nessa caminhada eu avistei o estaleiro onde estava este navio. Me impressionei quando vi a proa. Me chamou muito a atenção porque é um navio de 132 pés e quando estiver pronto, vai pesar cerca de 180 toneladas.

Depois de um tempo me inscrevi como voluntário na construção deste projeto e fui aceito. Sou o único estrangeiro trabalhando nele. Participei de várias etapas deste navio, desde a reconstrução do revestimento, sustentação do mastro e muito mais. A previsão de velejo é em julho deste ano e estou voltando para lá em maio com a intenção de ficar até projeto terminar. Mas, você deve estar se perguntando o que este navio tem a ver com meu trabalho? Eu te respondo. Tudo. Ali ganhei muitas horas de experiência na marcenaria naval. Me deu uma base muito grande, isso porque tudo que envolve a marcenaria naval é feito para ser resistente desde as formas de encaixe, tipo de cola e tudo mais. E é isso que trago nos meus móveis.

A poltrona San Diego hoje é a sua frente de divulgação de trabalho. Como surgiu a oportunidade de expô-la em San Diego?

Foi em 2016, durante a minha segunda ida à cidade. Eu soube que havia uma exposição exclusiva para arte com no mínimo de 90% de materiais reutilizados (Reclaimed-Elevating The Art of Reuse). Dos 300 trabalhos apresentados, o meu foi um dos 25 selecionados para expor durante o Minnesota Street Project. Todos os finais de semana eu visitava a exposição que durou um mês. Eu mesmo explicava para os visitantes como ela tinha sido criada e produzida.

Como fez para reproduzi-la em San Diego?

Eu pedi para um dos responsáveis pelo programa não governamental do navio, se eu poderia construir a poltrona lá. Porque para a exposição apresentei apenas imagens e fotos. Então tive acesso a um local de embarcações e descartes e todos os equipamentos à minha disposição. E com dois lemes antigos de madeira, manilhas de ferro e cordas de narcos, reproduzi a San Diego para a exposição.

Foto Estudio Brasil Imagens

De onde vem as inspirações para suas peças?

Eu não desenho. Minha criação é com as peças diretamente e em tamanho real. Meu desenho é feito depois do protótipo pronto. Claro, me baseio por certas medidas como apoio de braço, encosto, assento e dentro destes princípios trabalho como eu quero e com as madeiras que eu tenho. Um trabalho bem intuitivo, até porque se eu desenhasse tem certos pedaços que eu não iria ter e em algum momento seria preciso ter que comprar uma madeira nova, e isso é uma coisa que não faço.

Foto Estudio Brasil Imagens

Quais as principais características do seu trabalho?

Além de serem peças funcionais, trazem um pouco de arte. É um trabalho bem artesanal. Elas são muito mais que um simples móvel, carregam histórias. São únicas, nem eu mesmo conseguiria reproduzir 100% de uma peça. No processo criativo e construtivo trago marcas e características das madeiras para os móveis, mantendo cores das peças e utilizando-se de máquinas e ferramentas artesanais, trazendo assim história ao móvel. A produção está toda localizada na minha casa/oficina na Praia do Estaleiro.

Foto Estudio Brasil Imagens
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